quinta-feira, dezembro 08, 2005

voo hibernado

(pintura de antonio cara d'anjo "mulher deitada")


voar sim, liberto e sem destino
sei de mim como o acaso das plantas
à espera do tempo das flores

sou inverno sim, neve que derrete por te pensar
prendo o calor das memórias com dedos de veludo
e lembro-te em descongelamentos imediatos

preciso de te ver sim, e quero lá saber da vida quando voltas
não me alimento até chegares
e apodero-me do teu corpo com a fome do tempo

concerto-me num "vira-te!" sim,
saboreio todas as gotas da tua essência
exigo teus gemidos, gritos e a alma treme

treme, fria de época,
e sou inverno...
ruiluis

segunda-feira, outubro 10, 2005

um pouco de outono

(pintura de emil nolde "kerzentänzerinnen")

talvez já não me desconcertarei por esperas inúteis
(...e não existe mais o cais aonde teu barco se perdeu...)
pois, o mar é enorme e extenso no horizonte da espera

por vezes desapercebo-me em torno de um bar nocturno
(...ou se afundou a tua imagem nas profundezas do adeus...)
e a luz que rodeia a bebida é baça e débil de nós

somos hoje desconhecidos em memórias de uma casa esquecida
(...mas resta o perfume aceso da essência de um outono perdido...)
somos erva ardida nos campos de milho já seco, do tempo...

ruiluis

sexta-feira, setembro 09, 2005

abaunilhado



então...encontrava-te nas melodias
com sabor a estrelas em noite escura

(...ultimo beijo sem despedida...)

então...vejo-te como tatuagem
gravada no meu corpo
neste tempo de metamorfose

e então...envolve-me o teu cheiro...
saboreio-te, respiro-te
tento tocar-te, arrancar-te

(...flor de baunilha da minha recordação...)


ruiluis


quarta-feira, agosto 24, 2005

poema sobre o silêncio



(pintura de maria manuela mendes da silva "s.t.")


pingava-me a saudade no teu silêncio
e com a tristeza das flores
o cântaro encheu e trasbordou

(...nesse silêncio sou sorriso fundido de chuva
que não sabe aonde cai...)

no fundo te guardo
como um sonho de beira-mar passado
e os barcos ao longe que passam são os adeuses
de um acordar num céu
aonde nunca houve estrelas

nestas horas absurdas
a estranheza invade-me
e sou louco de alma a flutuar
por oceanos secretos
aonde um dia naufragámos

ruiluis

terça-feira, agosto 09, 2005

agora (fénix)

(pintura de eunice maia "floração estelar")

agora sou ave
sou um vento leve
e sou folha caida
em erva humida da manhã

sou manto branco
de fénix a elevar-se
num costante aguardo
em bailados soltos

e num pousar suave
bebo a agua da fonte
cristalina de energia
com o bater do meu coração

ruiluis

quarta-feira, julho 06, 2005

poema sobre a ausência

(pintura de antónio cara d´anjo "adraga")


agora, como sei que tu partiste
és ausência em tempestade na alma
e faltas-me como um sol perturbante

a penetrar pela janela, em manhãs desfeitas


vivo-te em silêncios

e sou uma esperança persistente do nosso passado

vivo-te em segredo

entre os ponteiros do relógio do teu regresso


mas enquanto não vens

enquanto não estás

és limão na amargura da distância

e imagino-me só no teu quarto

aonde me deito na tua cama

do lado que me pertenceu



alexander ibis

sexta-feira, julho 01, 2005

hoje, é assim !!!




















(pintura de ines gato "s/t")

hoje, e não me leves a mal
mas hoje, quero-te desconhecida
quero-te estranha e ignorada
qualquer insignificado sem sentido

hoje, não suporto uma palavra tua
uma aragem tua a passar por mim
quero-te descolorida e sem corpo
sem tempo, sem espaço perturbante

hoje é assim, sem mais nada
como o nada, em que te quero
e apago-te numa borracha de lápis
e rasgo-te em papel de tinta permanente

hoje, não mereces, nada mais de mim
não me lembro do amor e da paixão
hoje, nunca te vi, nunca te quis, nunca existimos
nem beijos, nem flores, nem nada, nem nada...

hoje é assim !!!

ruiluis

segunda-feira, junho 13, 2005

fim de ti

(pintura de maria manuela mendes da silva "entardecer" )

fito as fotografias
retratos de sonhos nascidos,outras banais
e invento o fim do mar...

no fim do mar
meu barquinho de leme sem esperança
naufragou de velas rasgadas

aqui e neste agora de alma desconsolada
sou lamento de cor púrpura
passeando na minha cicatriz,
fitando fotografias
no corredor do passado
no fim do mar
no fim de ti, em mim...

ruiluis

sexta-feira, junho 03, 2005

...

penso-te e...

já não consigo agarrar as palavras
que giram à minha volta, que te quero dizer...

perdi o meu oriente
e não sei mais aonde o sol nasce...

...esqueço-te !

ruiluis

sábado, maio 14, 2005

meu poema



(pintura de maria manuela mendes da silva "neblina")


silêncio...
é aqui que me tenho
sinto-te num rasgo
e vivo-te quieto e denso

...cansaço...
baixo a cabeça
e resta-me o chão
neste buraco de esperas

...no tempo
meu grito permanece
nas palavras que existem
e és tu o meu poema

ruiluis

segunda-feira, maio 09, 2005

corpos



(pintura de inês gato "s.t.")

teu corpo...
oferta dos deuses
do meu lindo sonho quase acabado
teu corpo...
minha união perfeita
em meu culto secreto sem altar
teu corpo...
vesti-me de ti
e és tatuagem eterna em mim

meu corpo...
um grito de criança
com a fome sem gosto em noite de abandono
meu corpo...
tempestade no deserto sem fim
a rodopiar sem destino
meu corpo...
alma que se tem
sem onde flutuar

meu corpo sem o teu...
nem sei, sequer se existe ?

ruiluis

segunda-feira, maio 02, 2005

diz-me...


(pintura de inês gato "s.t.")

diz-me...!
vejo-te em cada papoila
quando-lhes pego
e sinto-as a morrer
olhando-lhes no seu vermelho
da cor dos teus lábios de ópio

diz-me...!
cheiro-te em cada instante
quando passas em nossos lugares
pelo aroma do nosso segredo
de verdes silvestres
e sei que lá tiveste

diz-me...!
és meu sabor permanente
papaia das nossas noites sem manhãs
aonde não nos calávamos
e procurávamos constantemente
nossos olhos de cheiros de prazer

agora diz-me...diz-me...diz-me...!

ruiluis

domingo, abril 24, 2005

não sou...(suspiro)



(pintura de maria manuela mendes da silva "caminho da foz")

não sou...somos !
vivo-te no meu espaço
naquele que te dei em mim
naquele onde te sinto todos os dias

(segredo-te meu suspiro na noite...)

não era...eramos !
nascemos na primavera
fizemos os rebentos desabrochar
das árvores adormecidas do nosso passado

(...segredo-te meu suspiro...)

não serei...seremos !
vagueamos no tempo
qualquer fim que não conheço
mas sei, que permanecerás

(...suspiro-te...)

ruiluis

sexta-feira, abril 15, 2005

algum dia


(pintura de maria manuela mendes da silva "renascer")


algum dia, irei-te falar a última palavra
algum dia, irei-te ver pela última vez
(encontrei-me tantas noites a chamar o teu nome...)

algum dia, irei-te dedicar a última flor
algum dia, recordarei o nosso último beijo
(...porque a saudade nunca se esquece de ti...)

algum dia, o nosso perfume se difundirá no tempo
algum dia, o teu sabor se neutralizará no meu espaço
(...e eu adormecia-me na tua memória)

nesse dia amor, não irei mais existir...
nesse dia amor, levo-te comigo
para sempre...para sempre...

ruiluis

"algum dia" em italiano - sole di primavera

domingo, abril 10, 2005

a falta das palavras



(pintura de manuela pinheiro "mulher nr. 1")

faltam-me as tuas palavras...
momentos a dividir por ti,
algumas letras no amanhecer
que se perdiam em lençóis mornos...

faltam-me as tuas palavras...tuas !

faltam-me as tuas palavras...
algumas frases que de repente me dizias,
em que acreditei que o sol também nascia para mim,
se punha, quando unidos estavamos...

faltam-me as palavras...tuas !

faltam-me as tuas palavras...
sim, era com elas que me vestia
e que brilhavam na minha pele ao luar
em tatuagens, de ti em mim...

faltam-me as palavras, para eliminar
este silêncio...teu !
ruiluis

terça-feira, abril 05, 2005

conto de amor na primavera


( pintura de miguel oscar menassa "amor a corazon abierto" )


novo dia de primavera
numa boca, por um beijo desejado...
a saliva misturada
com sabores de flores do campo

depois o sol mistura-se entre dois corpos
que borboleteiam nas aragens mornas
em campos verdes de jardins
nas sombras do desejo

libertam-se os segredos
de aromas baunilhados
em sussurros nas orelhas molhadas
de mordiscos vermelhos

fantasias de cadiado abrem-se
numa liberdade de rosas,
arrombam todas as celas e amarras
e gritam-se inundadas de prazer comum

amo-te na primavera, sabes que sim...!

ruiluis


sábado, março 26, 2005

bailado


(pintura de ana horta "série aletheia - VI")



deixo-me envolver na dança
a que me prendes,
quando me pegas pela mão,
me encaminhas e me levas contigo

baila-me, ao som do céu e do vento
que nos eleva no ar
para lugares indefenidos
aonde sou o dançarino da tua noite...

...noite da tua saudade !
ruiluis

sexta-feira, março 18, 2005

o resto é perfume


(pintura de manuela pinheiro "afecto II")

sinto em cada passo,em cada movimento
em todo ar que respiro
o resto do nosso amor
nos lugares da nossa cumplicidade

cada sítio tem sua história
são capitulos inacabados
das palavras gastas
num livro aberto das poeiras do tempo

adiámos assim o nosso acordar
nesta sonolência de deserto
em que guiamos os nossos sonhos
em caminhos de estrelas sem noites

mas amanhã, ao abrir meus olhos
levantarei-me à procura do copo de água
e penso e sinto que o resto,
sim o resto do nosso amor, o resto é perfume...

ruiluis (baseado num texto de florbela espanca)

terça-feira, março 15, 2005

chuva da memória

(pintura de antónio sem "entre duas memórias")


chove em mim...
e sou a árvore
nua de folhas do inverno

a cor dos teus lábios empalidou-se
depois do último beijo
aonde a saudade desvaneceu
e se evaporou em brumas de restos

fundio-se o brilho em teus olhos
que o medo trouxe
com o fantasma do passado
em que amarra os sentidos

chove em mim...
na paisagem de café frio
em manhãs cinzentas na distância

alexander ibis

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

hora da partida

(pintura de manuela pinheiro "s.t.")


o inevitavel dia de cor púrpura acorda
no sono impossivel de quem aguarda
e é nesta imensa espera
que a coragem ressuscita e se faz luz

os destroços de vida espalhados
unem se por dedos cegos que lhes tocam
enquanto a manhã chega e acorda as poeiras
que o tempo criou de horas esquecidas

tanto tempo...

um suspiro avisa o momento
em que chegou a hora da partida,
e já é o dia que o mar traz em ondas
que molham a areia da maré-baixa do desespero

um leve movimento avisa também
um regresso anunciado de quem um dia partiu,
que quebrou a angústia
e concertou os fusíveis da alma desesperada

tanto tempo...chegou a hora da partida !

ruiluis

sábado, fevereiro 05, 2005

triste recordação sobre a morte dos meus olhos

lembras-te dos meus olhos quando morreram ?

não escutaste neles um sonido solitário
de um violino amargurado
no adro de uma igreja sem religião ?

não viste neles o nómada
guiado pelas estrelas e pelo vento
neste grande deserto aonde me deixaste ?

lembras-te dos meus olhos quando morreram ?

agora eles rejeitam olhares estranhos
e sorrisos indiferentes,
como beijos de um batom perturbante

agora já não desejam desvendar
o segredo e a fantasia,
de todas as noites dos amantes


alexander ibis

domingo, janeiro 30, 2005

pequeno poema sobre a memória num domingo de inverno

O meu amor dorme

profundamente em meu peito,

enquanto dorme

meus olhos vigiam a madrugada



antes de despertar

na aurora de um novo dia,

sonho com ele

memórias da nossa melodia...



ruiluis

domingo, janeiro 23, 2005

poema sobre a saudade

fiquei no cais
quando vi partir
o comboio do meu passado,
e partiu com ele a saudade...

(...vem e inunda-me com o teu suor
de sabores e essencias divinas,
recolhe os frutos
da árvore de inverno, que sou,
e faz de mim
a primavera desejada...!)

ficou o meu presente
e pertence-me o momento
em que, nesta tarde,
não houve despedida...

foi-se embora o passado
e lá em baixo oiço
a água do mar e as gaivotas
que me chamam sem se vêr...

(...vem e inunda-me com o teu suor
de sabores e essencias divinas,
recolhe os frutos
da árvore de inverno, que sou,
e faz de mim
a primavera desejada...!)

desço à praia
nesta tarde de janeiro,
que me pertence,
e espero-te no meio das gaivotas...


ruiluis (agradeço ao ALA toda a inspiração)

quinta-feira, janeiro 13, 2005

tudo real

sim, tudo é real agora...

(...é como se tivesse acabado de acordar
depois de um sonho inevitável...)

tudo é real !

o sentimento nasce em mim
como uma flor no campo
de paisagens intactas e adormecidas

não, não foste tu...
ao descobrir da tua inexistência
o pólen espalhou-se na imensidade do espaço

e quero-te assim
e sem existires sinto a tua presença
em mim, na minha flor, no pólen que se espalha...

e tudo é real, agora...

ruiluis

quarta-feira, janeiro 05, 2005

por vezes e assim

por vezes e assim deitados,
sentia-me uma cidade
com os teus seios
a erguerem-se sobre mim
como duas luas numa noite
que nascia dos nossos corpos

duas luas no céu
das minhas mãos
redondas, macias, mornas
de veias como rios da alma
numa suavidade que acalmava
até aos beijos do amanhecer

por vezes e assim deitados,
nascia o sol sobre a cidade
para um novo dia
em que o nosso acordar sorridento
mais parecia um mar de imensa calma
e tranquilidade final...

ruiluis